SÍNTESE DA AULA DO DIA 30/06
Na aula referente ao dia 24/06 foi solicitado a dois alunos que lessem um determinado trecho das “Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise”, de Freud. E é com comentário referente à obra supracitada que se inicia a aula do dia 30/06.
A Débora comentou que os fatos expressos no texto partem da experiência vivida pelo próprio Freud. Acrescentou-se ainda que segundo o autor do texto o psicanalista não deve fazer anotações e deve manter a atenção flutuante. Mediante ao próprio exposto a Débora indagou ao professor se a mente do analista é inesgotável. E também que o analista deveria ficar no estado inconsciente [comento isso na próxima aula, ok?].
O professor Sérgio não ficou muito certo se havia compreendido a questão. Mas mesmo mediante a primeira pergunta a própria aluna ficou de reformulá-la na próxima aula e o Edélsio refez a pergunta a sua maneira da seguinte forma:
“Quantos kbytes tem a mente de um analista?”
O nosso Ilustre professor achou formidável a colocação do Edésio, disse até que foi a melhor coisa que nosso colega já disse na vida.
E em relação à questão de que o analista deve trabalhar no inconsciente, O Sérgio nos esclareceu que não acessamos o nosso inconsciente. Trabalhamos com nosso pré-inconsciente [antecedem uma ‘boa idéia’: estados de distração, atenção não-focada, numa posição pré-reflexiva – como quer alberto Caeiro, Heidegger e Husserl]. [aquilo que nao é consciente, não necessariamente está localizado no Inconsciente]. E para nos elucidar melhor fez no quadro a representação do “pólo perceptivo”
Que lembra um pouquinho, a representação abaixo rs
Pólo das percepções saído motora
Excitação/input
Sentidos (acontecimentos traços da memória reações
(Energias; angústias)
Registros do psiquismo: tópico [diz respeito a lugares], dinâmico [enredos], e econômico [quantidades de energia em jogo no aparelho]
Uma pura intensidade entra pelo pólo perceptivo e vai sofrendo transformações e deixando marcas de memória. Em seu percurso progressivo, há uma transformação: quantidades se desdobram em qualidades, a intensidade ganha figura e palavra... [a idéia é a de ‘manter no aparelho psíquico as cargas que desejariam evacuar-se pela saída motora’]. A mãe transforma para o filho ‘angústia’ em elementos pensáveis – oferecendo assim vias colaterais de ligação. ‘Energia desligada’ gera angústia no aparelho.
O pólo perceptivo fica percebendo, é como um vigia, está em alerta, é “um gerúndio” [limpo de memória – nada obstaculizando este diafragma aberto: ‘recebendo’ é a sua palavra de ordem]
A percepção pode acontecer por questões externa e internas.
A memória: a nossa primeira é física. Sempre atravanca [memórias físicas, ainda não-psíquicas... cheiros, sabores... marcas mnêmicas sem a espessura de uma lembrança]...
Saída motora: é barrada quando adormecemos.
Sonho: zela nosso sono, alucina nossas percepções, e tem sucesso quando mantêm o sonhador dormindo, como exemplo, sonhos que sonhamos que estamos no banheiro e acordamos com a sensação úmida e molhada ! Ou ainda, quando ouvimos nosso despertador e sonhamos que é o apito do navio ou algo similar.
A relação do paciente /analista é comparada ao ato de dormir. O paciente e o analista têm que deixar se entregar pelas idéias [cadeias associativas], no caso do sonho, as idéias se transformam em imagens visuais, acústicas que nos capturam e sonhamos. Trata-se da auto-observação sem interferências.
Tendemos a descartar ou cancelar muitas coisas que nos são ditas. O analista tem de desconstruir suas idéias, sempre ouvir seu paciente como a primeira vez que o ouve. Compara esse procedimento ao sonho. Dormir é um processo de associação livre, uma alquimia.
Ainda sobre a atenção flutuante, “Non ducor duco”, não sou conduzido conduzo, parte-se desta premissa para que entendamos que não é nem o paciente, nem o analista que conduz a seção. Por isso que se pode fazer uso da expressão fale tudo àquilo que lhe vem à mente, e às vezes ‘quebrando protocolo” (como se referiu a Nara na aula anterior) que se podem obter informações mais relevantes sobre o paciente. Lembrando que a quebra do protocolo não pode ser intencional. Ela é ‘sem-querer’!
Deixar-se ‘ser falado’ pelo discurso, deixar-se conduzir, deixar o texto trabalhar dentro de nós etc... abrir mão de controle, abandonar-se à atenção flutuante.
As consultas precisam ter um caráter imprevisível! Reforça aí a idéia do esvaziamento do ser, para que haja espaço para ouvir o que o ser murmura e espaço para que o paciente ocupe a sala com a sua subjetividade. Assim é que eventualmente podemos oferecer algo que não apenas uma opinião [opiniões não são proibidas – mas pretende-se ir além delas: opinião é da alçada do ego; busca-se, em análise, ultrapassá-lo].
Quanto mais à vontade o paciente se sente com o analista, mais se aproxima da linguagem materna, com mais ambigüidades. Atenção flutuante põe o sujeito num estado poroso.
Para elucidar esta pratica, ele nos lê um e-mail de um ator que compara a rotina dos artistas de palco a psicanalistas e pacientes.
O capitulo VII, do livro dos sonhos [a interpretação dos sonhos, Freud, 1900] ilustra o caso de um homem que contrata um velho para velar o corpo de seu filho. Tal contrato é feito, pois o pai já estava há muitos dias se dedicando ao filho muitíssimo querido. mediante a sua morte, sentindo muito cansado, repousa em uma sala ao lado de onde ocorria o velório do filho. Ao adormecer, o homem sonha que o filho pega em seu braço, dizendo “Pai, Não vês que eu estou queimando?”!”
O homem não acorda de imediato, e ao despertar percebe uma labareda vinda da sala onde estava ocorrendo o velório. De fato, o filho estava queimando.
Este fato nos deixa evidente mais uma vez o sucesso do sonho. Esticando o sono, atrasa ao despertar. Assim também, o pai dá mais vida ao filho [que está vivo no sonho do pai]. Quanto mais demorasse para despertar, mais vida teria dado ao filho morto...
O sonho está presente também em nossas fantasias alucinatórias. A necessidade só acontece uma única vez. Um recém-nascido, por exemplo, quando sente fome e a mãe o alimenta com seus seios fartos e bonitos, se satisfaz plenamente. Já quando ocorre a fome pela segunda vez, a criança se lembrará da sua primeira amamentação, porém a alucinação não suprirá a sua fome, conseqüentemente a criança chorará para ser alimentada. Mas, até lá, ela se satisfaz fantasiando: a isto dá-se o nome de ‘satisfação alucinatória do desejo’.
O tempo todo temos desejos alucinógenos. Sérgio cita Lacan, para nos dar um exemplo na relação sexual. Durante o ato sexual convocamos nossas fantasias, e as projetamos no parceiro. Há portanto uma multidão na cama de dois amantes.
A excitação que no sono caminha no sentido regressivo [já que a saída motora está barrada], ativa as marcas mnêmicas que resultam nos sonhos. Também os restos diurnos de maneiras multideterminadas oferecem roupas com as quais os sonhos se vestem.
Segundo o professor, Freud dizia que ao dormir, retiramos os investimentos das representações, das idéias e dos pensamentos. Há um desinvestimento. Des-catexização. Temos que nos entregar ao sono, nos deixar sermos capturados. Non duco, ducor! Se tiver uma palestra a fazer e eu ficar pensando em que devo falar, o que podem perguntar...
O analista trabalha em abstinência e assepsia, e está interditado em seu o ato. Sua saída motora está também barrada, à semelhança dos sonhos. conter a ação e a transformá-la, é o lema, um ideal a ser atingido [e se é um ideal, há situações nas quais isto não se dá!]. o analista não tem memória, nem desejo! [a frase é de Bion]. Assim também é o ator ao encarnar um personagem. No limite, o ator desaparece, e no palco só há o personagem...
Sonho cura! Sonhar a dor é o desafio! Análise é um trabalho de desconstruçao!
Voltamos ao exemplo da mãe que, ao ouvir a criança chorar, contém as cargas de angústia e as devolve transformadas para a criança. A boa mãe assim faz.
“Mil vezes a experiência tem demonstrado, mesmo em pessoas não particularmente dadas à reflexão, que a melhor maneira de chegar a uma boa idéia é ir deixando discorrer o pensamento ao sabor de seus próprios acasos e inclinações, mas vigiando-o com uma atenção que convém parecer distraída, como se estivesse a pensar noutra coisa, e de repente salta-se em cima do desprevenido achado como um tigre sobre a presa” .
Novamente, reforça-nos a idéia da atenção flutuante para analista, e associação-livre, para o paciente. [no encontro de ambas, há um insight – produto de dois, autoria compartilhada].
Temos que nos deixar levar. São as memórias involuntárias que ativamos na atenção flutuante. esvaziar para lembrar. Nosso corpo carrega marcas, às vezes nem lembramos, mas estão lá… oriundas de nossas histórias. O sotaque por exemplo é a lembrança da nossa raiz, para jamais ser esquecida.
Tem-se também como exemplificação a mulher que ao saborear uma comida pronta diz todos os ingredientes contidos na receita. E ela que nunca havia feito a receita antes, faz com excelência. Eis a desconstrução!
OUTRAS CITAÇÕES
Goethe: “É próprio de nosso espírito supor confusão e trevas onde não sabe o que se tem a esperar”. Goethe - Werther , 1986, p. 136.
Cabral: ‘A hora da verdade é quando o toureiro mata o touro. O bom toureiro corre o risco de propósito nessa hora. O risco é fundamental. A hora da verdade’ (João Cabral de Mello Neto, entrevistado por Arnaldo Jabor, Folha de São Paulo, 5 de setembro de 1991).
PARA REFLETIR:
“ O método certo nas mãos da pessoa errada não conduz a resultado algum.
O método errado nas mãos da pessoa certa produz resultados interessantes”
Martin Buber
Detalhe quem transcreveu está aula foi a Aline...
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